domingo, 12 de janeiro de 2014

Opções

       Hoje é o meu 18º aniversário. Sinto-me velha. Desço as escadas, dirijo-me até à cozinha para tomar o pequeno-almoço tardio. Encontro a minha mãe, que me dá um abraço enorme de felicitações. Olha para mim e diz os anos passam a correr e para aproveitar a minha vida. Agradeço, viro costas, pego numa tigela, ponho cereais e leite e começo a comer. Mais tarde, aparece meu pai. Homem frio, apenas diz parabéns. Nesse aspecto, devo ser igual a ele. Não me importo que ele não mostre algum carinho por mim.
        Acabando os meus cereais, aparece a minha melhor amiga (melhor dizendo, minha única amiga). Deu-me os parabéns, com um enorme abraço e beijos. Primeira coisa que diz:”Parabéns!”. Segunda coisa: “Já podes ser presa!”…. Ok, passando à frente. Convido-a para almoçar comigo. Almoçámos. Repentinamente, minha mãe pára ao pé de mim e dá-me um embrulho enorme. Parece pesado. Diz que é a prenda dela e do pai. Nunca tinha recebido uma tão grande, nem mesmo do Natal dos meus avós dos EUA.
        Ao abrir, vejo que é um quadro. Um quadro diferente de todos os que já tinha visto. Fundo negro, tinha uma lua em quarto minguante branca, com três estrelas brancas alinhadas na vertical ao lado. Ainda pensei que as três estrelas pudessem representar o meu nome (Ana) mas deixei a hipótese completamente de lado. Guardei a minha prenda no quarto e voltei a descer.
        Estive com a Filipa até quase de madrugada. Foi-se embora. Decidi colocar o meu novo quadro. Ao coloca-lo, fiquei com uma sensação estranha. Passei a mão pela lua e pelas estrelas. Tinham um certo relevo. Fechei os olhos. Abrindo-os novamente, vejo-me sentada naquele quarto minguante e com as três estrelas à minha frente. Belisco-me para saber se estou a sonhar ou não. Parece que é a pura realidade. Não se ouve nada. Devo ser a única ser vivo neste estranho mundo. Mas sinto uma paz que nunca tinha sentido. Ver os meus pais a discutir estes 18 anos à minha frente fizeram de mim uma jovem revoltada. Começo a cantarolar a minha música favorita. Pequenas lágrimas começam a percorrer o meu rosto. Deitei-me. Ao erguer-me de novo, vejo que uma das estrelas sumiu. Alguém do meu mundo a roubou, penso. Preciso sair daqui. Mas como? A minha família nem se deve ter apercebido da minha ausência. E sinto-me tão bem aqui. O que é que eu faço? Se ficar aqui sozinha, morro doida. Se trago alguém para aqui, é capaz de não dar.
        Opto pela minha felicidade e pela minha paz ou pela minha morte lenta e dura por estar com aquela família a que nem sequer pertenço?